Segunda-feira, 15 de Setembro de 2008

Aldeia da Barreira da Bica

 

 
Recordações de infância de uma aldeia Avieira
 Pesca na Foz do Rio Alviela - 1973
A aldeia de pescadores da foz do rio Alviela encontra-se a cerca de dois quilómetros de Vale de Figueira, no concelho de Santarém, local onde se estabeleceu durante várias décadas uma colónia de pescadores, oriundos de Vieira de Leiria e que se vieram espalhando ao longo do curso do rio Tejo.
Algumas destas famílias fixaram-se na foz do rio Alviela, lugar de grande riqueza paisagística, de abundância piscícola e de excelentes condições para construírem as suas casas típicas de tipo palafita, a que davam, como dão, o nome de barracas. Ao local chamaram Barreira da Bica, pelo facto de existir – como hoje ainda existe - uma fonte de água pura vinda da encosta.
 
O seu modo de vida - como a construção da casa, do barco e da lide da pesca – era um conjunto de artes herdadas de geração em geração. As suas leis, as mezinhas e orações eram feitas pela necessidade de resolverem os problemas que o isolamento lhes colocava. Conviviam em pleno respeito e obediência pelos mais velhos da comunidade.
O agregado familiar era por norma muito alargado, com uma média entre os cinco e os sete filhos por casal, chegando a registar-se uma família com doze filhos.
Aldeia da Barreira da Bica
A aldeia chegou a ser constituída por 28 barracas, incluindo a própria habitação, a cozinha de “fora”, adega, o forno comunitário (ainda existente) e os galinheiros que apenas guardavam os coelhos, visto que as galinhas viviam em plena liberdade. Chegavam a criar porcos e bezerros que muitas das vezes serviam para vender, para assim fazerem algum dinheiro para comprarem as coisas básicas.
Tudo era conseguido com muito trabalho e partilha de tarefas pelo casal, na pesca, que geralmente era feita à noite - a mulher remava e o homem “deitava” as redes à água e mais tarde “levantavam” para colher o que o rio dava. Muito ou pouco, a mulher ia vender para os mercados, ou mesmo porta a porta, na esperança de vender por bom preço. Claro que o trabalho na pesca e a longa caminhada que a mulher fazia para a venda, quase sempre descalça, não eram compensados pelo que o cliente lhes pagava.
Com o passar do tempo e as dificuldades na sua arte a aumentarem, foram-se empregando noutras áreas e as suas vidas foram-se alterando. Por estes e outros factores, como a poluição do rio Alviela, foi-se dando o abandono até à desertificação total. A aldeia foi morrendo, sem gente, com as casas abandonadas, e com os barcos e apetrechos ao “Deus dará”!
Lembro-me que, quando era pequeno, levado pela mão do meu pai, corria pelas ruas estreitas entre as barracas da aldeia em brincadeira com o meu irmão gémeo e a nós se juntavam as muitas crianças da Barreira da Bica. Para elas o trabalho, apesar da idade, ocupava-lhes muito tempo, sendo uma necessidade para a sobrevivência das suas famílias, pouco lhes restando para brincar.
Sentia uma enorme liberdade com essas brincadeiras, como as águas que percorrem o rio, uma felicidade difícil de explicar para quem com eles não conviveu, e uma paz de espírito de que hoje sinto necessidade.
Família Avieira e amigos
Um dos pontos altos do dia era a hora do almoço, na mesa em madeira pregada em estacas, com comprimento suficiente para acolher muita gente alegre, que crescia tanto em satisfação como decrescia o néctar no garrafão. A ementa era sempre a mesma: o peixe saboroso do rio, a salada de tomate das hortas, sempre regado com bom azeite e salpicada com um pouco de sal que fazia puxar para a “pinga”. No final do repasto as mulheres lavavam a loiça e os homens contavam anedotas, com risos por vezes algo descontrolados, acabando alguns por “passar pelas brasas” com a cabeça em cima da mesa, quase como num gesto de agradecimento pela refeição.
Num dia de um belo repasto, regado pelo bom vinho, um amigo pescador lembrou-se de perguntar ao meu pai qual era a sua patente militar e logo lhe dirige a palavra: “Ó xenhor Zé, há tanto tempo que lido conxigo e não xei qual é a sua graduação (militar)… Qal é a sua graduação?”. Ao que o meu pai, já bem bebido, lhe responde: “Ó rapaz, por esta altura deve estar nos 14 graus!”. Foi uma risada geral.
Depois da digestão, vinha a tão esperada viagem de barco até às praias do Tejo, onde o areal extenso com apenas um pequeno mouchão de salgueiros nos ia proteger do sol quente e deixar estender a manta ribatejana que suportava um lanche recheado de coisas boas, com a presença do “amigo” garrafão. Tardes intensas, em que o tempo corria lentamente dando espaço para chapinhar na água do Tejo até ficar com a pele enrugada de tanto aproveitar.
Lance de rede
O meu pai e os amigos pescadores faziam sempre um lance com as redes que vinham recheadas de fataças que iriam ser a ementa do nosso jantar. Já na aldeia, com todos presentes, o convívio prolongava-se pela noite fora, manifestando-se já sinais claros de cansaço nas crianças que, encostadas aos mais velhos, adormeciam ao som de um fado cantado pelos pescadores e, algumas vezes, de um bailarico animado pela flauta de um velho tocador.
A vida destes pescadores era alegre mesmo com a dureza do trabalho. Apesar das condições de vida, não deixavam de mostrar o seu verdadeiro carácter: homens de fé, de alegria, trabalhadores e possuidores de uma grande amizade pelo próximo, com grande destaque para o respeito e para a protecção da sua própria família. 
Actualmente, na Barreira da Bica, apenas resta uma ou duas barracas em mau estado de conservação, imperando o mato e as silvas onde outrora existiu uma aldeia cheia de VIDA…
 
 
José Vicente Calado Gaspar
Vale de Figueira, 30 de Agosto de 2008
 
 
 

 

 

 

 
sinto-me: com muita pinga...
publicado por JGaspar às 11:53

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8 comentários:
De David Minderico a 15 de Setembro de 2008 às 16:15
Meu grande Amigo de que gosto tanto ...
Como se pode fazer um amigo em tão pouco tempo !.... Qualidade a transbordar de um ser único, só pode! ... O GRANDE HISTORIADOR ...
Começo por dizer que escolher o Sapo , merece-me reticências ... já que conheço e gosto muito mais de trabahar no blogspot, mas como o conteúdo é o mais importante, tudo bem ... e esse de certeza que vai ser de primeira qualidade ... Fico a aguardar novos post's e Boa sorte pra gerência dos comentários.
Um Grande abraço deste teu concorrente de 2ª. classe.
De Ana do Sérgio a 16 de Setembro de 2008 às 09:41
Á sempre histórias engraçadas para lembrar e repartir com os amigos.
Cenas giras que nos mexem na alma e no coração.
A vida é sempre um caminho difícil de atravessar e passageira, porém sem prazo de acabar. Tem momentos de prazer, dor e aventura, momentos de sofrimento e amargura. A vida desenvolve-se e quanto mais se vive mais se aprende. E por mais difícil que seja a tua vida, vive-a; por mais obstaculos que possam surgir, ultrapassa-os; por mais cruel que seja o destino, luta.... Pois só assim se consegue atingir a aquilo que se chama FELICIDADE!!!

E nada melhor, que uma pessoa como tu, Zé, para divulgar de forma tão perfeita e terna, estas tuas vivências do teu caminho de Vida!!!

Bem Haja e agradeço sempre as tuas iniciativas e a tua amizade...
De Ana do Sérgio a 27 de Outubro de 2008 às 21:08
Impressões, jeitos, ideias , raciocínios , pensamentos, histórias ou acontecimentos... são parte da tua vida, mas podiam ser de outra vida qualquer... quem sabe até da minha vida...
Se é que há coisas que acontecem na vida de todos nós!!!??? Acho que sim, de uma forma ou de outra, todos nós passamos por situações muito semelhantes, vividas em tempos reais...
Sabes que chorei quando vi este vídeo , comoveu-me. Talvez, seja um dia mais sentimentalista para mim, mas, fez-me recordar as histórias que os meus avós me contavam e que eu ficava a saborear cada palavra como se de um rebuçado bem doce se tratasse.

Quero agradecer-te por me mostrares mais uma parte da tua santa terrinha ribatejana e realmente só tenho pena que sítios como esses não sejam preservados, para um dia quem sabe, tu ou eu, os pudermos mostrar aos nossos netos e também lhe saborearmos as almas.

Bem haja, Zé...
Beijinhos :)
De JGaspar a 19 de Novembro de 2008 às 15:32
Uma das minhas grandes emoções e última, foi de conhecer o AMOR de um grande amigo.
Obrigado pelas tuas palavras sempre carinhosas.

JGaspar
De Sérgio Galvão a 27 de Outubro de 2008 às 21:27
Grande Amigo. Que grande post que aqui está!! Traz-me uma certa nostalgia, pois recorda-me as "Memórias do Alviela", exposição que levas-te a cabo e que acho que foi um GRANDE acontecimento cultural na nossa terrinha. Um grande bem haja pelo projecto que estás a tentar levar a cabo e sabes que da minha parte podes sempre contar com a minha humilde e pobre ajuda. Não tenho mais palavras para te dedicar. Só te posso agradecer e acho que toda a gente da terra pelas várias coisas boas que tens trazido e dado a Vale de Figueira. Um Grande Abraço e Força.
De JGaspar a 19 de Novembro de 2008 às 15:24
A nossa grande "terrinha" só existe pelo facto de pessoas do passado e presente fazerem alguma coisa por ela e no futuro vai continuar com a tua ajuda sempre incansável...
Tou sempre a contar contigo para novos desafios.

"AQUILO QUE SOMOS DERIVA DAQUILO QUE JÀ FOMOS"
Obrigado
JGaspar
De David Minderico a 17 de Novembro de 2008 às 13:07
Bem, meu Amigo ... este Vídeo no mínimo é essência pura da santa terrinha . A mim significa um belíssimo trabalho da tua parte, mas para os habitantes da terra ... é de fazer derramar lágrimas e sentimentos até mais não esquecer ... Continua e força para uma motivação constante.
Abraço imenso.
De Fernando Castro a 19 de Março de 2010 às 10:18
Amigo Gaspar, já nos conhecemos há alguns anos sempre no âmbito do trabalho, e de um dia para o outro e do nada, ficamos a conhecer uma outra faceta de cada um de nós. Ficaste a saber que além de te "tratar mal" ao telefone, tenho uma paciência que nunca mais acaba, tudo o que tu viste no site além da própria telha é criado por mim, é uma forma de aliviar todo o stress da vida e ao mesmo tempo fazer o que tanto gosto. Estarei disposto a fazer e a oferecer-te uma barraca AVIEIRA se tu me conseguires fornecer umas fotos com vista geral das mesmas, de forma a que se consiga retratar os pormenores.
Continua com o teu trabalho e dedicação pois estás no caminho certo.
Um grande abraço
Fernando Castro

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