Domingo, 14 de Setembro de 2008

Hospitalizado

 

 
Hospitalizado
 
 
Pela primeira vez fui hospitalizado depois de 44 anos de vida, possivelmente até tenho que agradecer por ter sido “chamado” tão tarde, mas o certo é que entrei no dia 6 pelas 21 horas com um desconforto e mau estar vindo da barriga, pensando eu que tudo tinha origem numa recente intoxicação alimentar. Para surpresa minha, a “coisa” era um pouco mais grave de resolver. Estive 24 horas deitadas numa maca, que mais parecia um elemento de um carrossel pela sua constante movimentação. Finalmente, depois de descobrirem o meu “mal”, tive a possibilidade de estabilizar na cama 36 do piso 4. Então, sim, pude dormir uma noite tranquilo, mas, mais uma surpresa estava reservada para mim. Fui convidado a mudar de quarto, por uma funcionária do hospital, que ao puxar pela minha cama, frisou “olha esta é a cama mais pesada” e, de seguida, me anunciou que o quarto iria ser para mulheres. De facto, eu estava a mais. Sendo assim, lá fui parar à cama 34 do quarto ao lado, junto à janela com vista panorâmica. Com estas mudanças, acabei por ganhar dois colegas de quatro: o Sr. Baptista, possivelmente com idade entre os 80, de estrutura média e cheio de “genica”, mostrava bem uma irritabilidade de estar já há tempo de mais no hospital, que acabou por ser satisfeito, e foi para casa no dia seguinte à minha entrada; mais próximo de mim, o Sr. Marcelino, cujo nome a enfermeira elogiava por ser bonito, homem de estrutura alta e de 74 anos de idade, não me deixou praticamente dormir na primeira noite pelo seu roncar, que mais parecia um “tractor” sem lubrificação, a pouco e pouco fui conhecendo este homem de mais ou menos 1,80m, que se bufava frequentemente enquanto dormia, talvez por já não ter qualquer controlo.
Apenas tivemos uma conversa sobre a sua actividade, onde morava e a família e logo percebi que apesar da sua estrutura, que muitas das vezes associamos a pessoas rudes e de mau feitio, Marcelino era tudo menos rude e de mau feitio e que, apesar da sua dor constante nas costas, mostrava ser meigo, delicado nas palavras e muito sofredor pelo trabalho do campo.
Na segunda noite neste quarto e quarta no hospital, verifiquei que o Marcelino não adormecia e em vez do roncar insuportável, apenas ouvia muito timidamente um gemido que mais parecia de uma criança, mas de facto era o Marcelino, que tentava suportar a dor apenas para si sem querer incomodar-me. Chamei pelo seu nome e ofereci-me para ajudá-lo e acabou por agradecer e dizer que aquela dor nas costas cada vez era mais forte, acabei por chamar o enfermeiro que ao entrar no quarto pediu ao Sr. Marcelino para classificar a dor de 1 a 10 e obteve como resposta, entre o 6 e o 7 e, de seguida, o enfermeiro tendo uma ideia da dose do medicamento pela medida improvisada, colocou mais um saquinho para as dores através do soro.
A alvorada no hospital era sempre às 6h30, com o agitar dos utensílios e carrinhos dos enfermeiros, que me faziam lembrar os tempos de tropa, só que desta vez não dava muito jeito perfilarmo-nos na parada, apenas ficávamos imóveis na cama a pensar que o dia seria de melhoras e que com alguma sorte iríamos para casa, claro que isso não calhava a todos e muitos continuavam com as mesmas dores como era o caso do Marcelino.
Com o seu ar meigo e com algum esforço, foi sentar-se no cadeirão junto à janela e ali ficou de cabeça baixa durante alguns minutos até o interromper com a pergunta do costume: “sente-se melhor hoje senhor Marcelino?”. Levantou a cabeça, compôs os óculos e disse: “ Esta malvada dor não me larga, só gostava de ter coragem para acabar com a vida…”, e assim ficámos a ver o tempo a passar num sítio onde a expressão “Bom dia” não existe.
 
 
sinto-me: triste...
publicado por JGaspar às 23:23

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9 comentários:
De David Minderico a 15 de Setembro de 2008 às 16:04
Pois é isto é tudo muito bonito ... mas, a Malta gosta é de fotos ... ao menos das enfermeiras, que já nem falo do TUBO!... que tanta alegria tem dado ao Mundo .
Parabens pela cor escolhida e continuação é o que a Malta gosta e precisa ...
De JGaspar a 19 de Novembro de 2008 às 15:11
Pois é meu amigo David, depois do teu comentário, penso k já melhorei um pouco com a introdução dos vídeo! Não?
Em relação a fotos das enfermeira, vou-te contar uma coisa triste, só me calha enfermeiros : ) é verdade...
O que vale é as funcionárias da limpeza : )

Xau
JGaspar
De Ana do Sérgio a 16 de Setembro de 2008 às 10:25
Vou-te também contar a minha primeira e única vez que estive hospitalizada. Foi logo de manha que entrei naquela casa de saúde ( escura, por sinal), claro que a minha mãe sempre de mão dada comigo. Lá foi eu encaminhada para a minha caminha miniatura, sempre de mão dada com a minha progenitora. A Sra. Enfermeira chegou e levou-me para uma sala, onde só via tudo branco... A minha mãe sentou-se e eu saltei para o colinho terno dela, abri a boca e lá foram as minhas amígdalas ( não muito amigas, por sinal)...
Claro que não doeu, mas tive de chorar...
Lá vieram os belos dos gelados e todos os mimos ternos da mãe.
O meu querido Pai comprou-me uma boneca e conduziu-me até casa, até á minha doce cama...Eram 18 horas quando saí, e os meus ternos cinco anos tiveram a presença de um batalhão de pessoas amigas á minha espera...

Foi mesmo assim, uma aventura á garganta...
Acho que ainda tenho o cheiro da bata da enfermeira, o olhar de sofrimento da minha mãe e o colinho do meu pai...
Quem me dera, ser operada novamente ás amígdalas e ter junto a mim, todas aquelas pessoas...
Vitória, vitória e acabou-se esta pequena história...

È verdade, não tenho registos fotográficos e não fiquei com tubos... Fiquei foi com um apetite voraz que me transformou literalmente, numa rapariga grande, mas pequena de idade...
De Vitor a 21 de Outubro de 2008 às 20:57
À ganda Zé.Lá me surpreendeste outra vez.
Afinal já estás bom ou não?
Não tenho fato adequado para ir a funerais.
Quando vens visitar os amigos?
Bjs às 3 Marias e para ti um grande abraço.Ainda me faltam 4092 caracteres mas isto vai assim à laia de telegrama.
De Tó-Manél a 23 de Outubro de 2008 às 00:06
Está muito bom, não sabia que tinhas este dom da escrita, a história que contas das barreiras do alviela e tejo fascinou-me, fazendo-me recordar a minha infancia pois ia lá muita vez com o meu pai e também assisti a paródias identicas, é fantástico.
De Mario Taglialatela a 28 de Outubro de 2008 às 15:50
Emocionei-me com as tua palavras. Obrigado.
Um grande abraço para ti. Continua assim. Fico atento as novidades do blog.
De JGaspar a 19 de Novembro de 2008 às 15:03
Olá Pe Mário.
As coisas devem ser feitas com emoção e carinho na esperança da partilha e ajuda ao próximo, neste mundo da Globalização sem humanização.

Obrigado
JGaspar
De carla ventura a 18 de Novembro de 2008 às 14:10
Zézinho! Boa Tarde é sempre uma alegria e orgulho partilhar contigo vivências.
Quanto ao Post hospitalização apenas quero deixar uma mensagem ( positiva) "Em todas as coisas da vida escondem-se um prazer e um bem que é preciso descobrir e partilhar".
Acerca dos restantes post(s) ,Ter uma razão pela qual lutar gera força e optimismo . UM LEMBRETE : Milímetro a Milímetro cresce uma árvore, logo, a maioria dos êxitos são consequência de um esforço perseverante no tempo necessário. Um Beijinho.
Até novas publicações e respostas. Carla
De JGaspar a 19 de Novembro de 2008 às 14:53
Obrigado Carla pelo teu comentário.
A intenção e a existência deste blog é poder partilhar com os amigos, um vivência comum, utilizando as novas tecnologias ao nosso dispor na lacuna da vida de um diálogo directo.
Bjsss...
JGaspar

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